Dia 26.05.2010

27 de maio - sangue na parede & duas noites numa cave repleta de escombros (V I)

27 de Maio em AngolaEntre os demais, parece também ter sobrevivido para contar essa triste e dolorosa experiência que tinha começado para mim, exactamente no dia 30 de Maio de 1977 que durou até Dezembro de 1979.

Mais não me considero um herói.

Quando se é herói, se luta se recusa os interrogatórios e se prefere morrer.

Sobre o 27 de Maio de 1977, tenho muitas lembranças, todas elas comoventes e terríveis, mas uma das quais me obceca é aquele dia em que, tentava ajudar o Meno, a tirar os papeis de jornais presos ao seu corpo ensangüentado e no dia seguinte já era morto.

Lá estávamos todos prostrados era de dia era de noite, uns ao lado dos outros, apertados pela falta de espaço.Todos tristes, ninguém se ria e já ninguém conseguia também chorar ou gritar.

Todos os dias entravam e levavam presos para serem mortos. A única língua que se ouvia e se falava era de morte. Curiosamente alguns dos nossos carrascos tinham sido antes , nossos camaradas de tropa , subordinados ou chefes .

Duas noites numa cave repleta de escombros

Havia sangue e pedaços de corpo por toda parte. Não dava para acreditar ,quando lá fui empurrado , guardado pelo famoso Bonifácio e mais 7 militares que mal falavam o português. Eram kwanhamas, que repetidamente nos diziam que, nós iríamos pagar pela morte do Comandante Dangeré.

Era impossível reconhecer muito daqueles corpos, que eram retirados quase de hora á hora. Havia sangue por toda parte e paredes.Era como se fosse uma bomba que tivesse explodido dentro daquela cave, por um pequeno postigo, conseguíamos ver os outros que estavão na cave ao lado onde os poucos que tinham sobrado, estavam todos em estado de choque e suas caras cheias de sangue espirrado.

Já li tanta coisa escrita sobre as experiências vividas por outros ex presos, e gostariam que soubessem o quanto sinto, profundamente todo sofrimento de tantos milhares ou milhões, de pessoas que ainda são torturados física e psicologicamente por esse mundo fora.Parece sermos poucos sobreviventes, os que para além de terem passado por celas ou casernas estiveram uma ou outra noite numa das tantas caves improvisadas, como prisões.

Sabe- se, que as caves das casas de Onambwé, Ludi kissassunda, Iko Carreira e outros, foram também utilizadas como cadeias de improviso.Até hoje, ninguém ainda escreveu sobre isto, o que parece ainda proibido, tabu ou um segredo doloroso de lembranças humilhantes guardadas zelosamente pelos poucos sobreviventes do 27 de Maio de 1977.

Precisamos romper este silencio

Façam como eu chamem as coisas pelo seu próprio nome, em nome da verdade pela pátria e só por ela.

Hoje são conhecidos os campos de concentração Nazistas e o Gulag Soviético, mas praticamente não se sabe nada sobre essas caves improvisadas de prisão que existiram, até mesmo no Futungo de Belas e quintas de certas personalidades.

Onde passaram tantos corpos feitos cadáveres até serem lançados para as valas comuns. Eram condições brutais e desumanas e não me lembro de alguém ter tido uma sentença ou julgamento prévio.

A morte de adé (Adelino Xavier)

Meu amigo e camarada de gabinete, repartíamos a mesma sala de trabalho naquele primeiro andar do ministério da defesa.

Foi com ele que aprendi a conduzir e estava convidado para ser meu padrinho daquele que seria o meu primeiro casamento. Gozava de muito respeito e admiração por parte de muitos colegas do (CIM) , assim como na comissão popular do bairro Sambizanga , onde freqüenta regularmente.

Respondia pelo CIM, na unidade militar (R 20) e várias vezes lá estavam também na PM onde tinha os amigos Escorpião e Jacinto Lima.Quando foi preso, alguns dos seus familiares foram obrigados a denunciá-lo, sua mama que eu também tratava por mama , não agüentou , negou e acabou suicidando-se.

Quando um dia regressou do interrogatório, já tinha seu rosto rebentado de chicotadas, que fazia seu sangue salpicar pelas paredes. As manchas de acoronhadas pareciam afundar-se cada vez mais no tecido de nossos corpos feitos esqueletos.

Adé como lhe costumávamos chamar parecia que sabia que haveria de ser morte e assim aconteceu.Quando o levaram ás 4 horas de madrugada, cheguei a ter a sensação, de que já estava morto.

Eles queriam que ele falasse, onde estavão os outros amigos do bairro. Ficou tão destroçado que já não parecia mais um homem, totalmente ferido, humilhado, mas não abriu a sua boca.

Mas nós não vamos ver nele um réu que sofre sozinho e morreu como foi. Quem passou pela cadeia, sabe o que significou aquele massacre para todos nós.

Milhares de outros angolanos foram torturados e mortos antes e depois dele. Não foi o povo , nem nenhum tribunal , quem sugeriu para que , nossos amigos , camaradas , irmãos e compatriotas morressem como foram.

Deus tenha em paz e sossego suas almas.

Tudo pela pátria e só por ela

Fernando Vumby

Fórum Livre Opinião & Justiça